Breve análise aos resultados autárquicos em Mafra

Freguesias

Em ano de renovação, só em Mafra havia recandidatura, o PSD venceu 10 das 11 freguesias no concelho de Mafra. Isto apesar ter obtido, globalmente menos 500 votos para as Assembleias de Freguesia do que em 2009.

Nota especial para a minha freguesia, Ericeira, reconquistada por Filipe Abreu, com maioria, a uma liderança PS que tanto destruiu o bom trabalho feito anteriormente. O PSD obteve mais 258 votos do que em 2009, já o PS perdeu 136 votos, o BE nem se apresentou a votos (tinha tido 468 votos) e a CDU mais do que duplicou a votação com mais 198 votos. A candidatura independente de Mano Silva obteve 349 votos e um mandato na Assembleia de Freguesia.

Câmara Municipal

Depois de um processo interno muito complicado, com muitas birras e teimosias, o PSD apresentou o deputado e ex-vereador Hélder Sousa Silva como candidato. Contrariado, o ainda presidente da Câmara, Ministro dos Santos, nunca manifestou grande apoio a esta candidatura.

Talvez isso explique a perda de 1010 votos em comparação com 2009, apesar de terem havido mais 1036 votantes. O PSD vence a Câmara, mas face os resultados anteriores não convence. Com um candidato sem qualquer ligação ao Concelho, o PS conseguiu subir 115 votos. O CDS perdeu 466 e o BE não se apresentou a votos.

Desta vez a CDU foi mesmo a grande vencedora destas eleições ao ter elegido um vereador. Graças à falta de comparência do BE, a CDU teve mais 1792 votos, mais do que duplicando o resultado de 2009.

Assembleia Municipal

A votação para a Assembleia Municipal tem sido sempre um “sim, mas…”, o PSD ganha mas a votação é sempre inferior à da Câmara. Este ano, mais do que isso o resultado deveu-se a vários erros de casting, que resultaram numa descida de 5,11% e na perda de um mandato ao se obterem menos 1035 votos (apesar de existirem mais 1047 votantes).

Neste órgão que será de uma importância vital nos próximos 4 anos, dados os problemas de liquidez que assolam o município, o PSD consegue manter a maioria graças aos 10 presidentes de junta. Será interessante observar como será feito o equilíbrio de poderes entre o presidente da Câmara e o da Assembleia (e também do PSD local) que não se costuma esquecer rapidamente do passado.

Apesar de ter uma votação inferior em 154 votos, o PS consegue mais um mandato, a forte subida da CDU apenas lhe vale mais um mandato do que em 2009, à custa do CDS que teve menos 621 votos, e o BE mantém o seu representante na AM apesar de ter tido menos 536 votos.

Conclusão

Considero lamentável que apenas 49.76% dos inscritos se tenham dignado a exercer o seu direito ao voto. Apesar de o concelho ter crescido em 8648 eleitores, houve apenas mais 1036 votantes, tendo a abstenção passado de 43.94% para 50.26%.

Isto prova, claramente, que a integração dos novos habitantes do concelho não está a ser bem feita. Urge tomar medidas para que estes novos habitantes se integrem na comunidade e para que Mafra não se torne num concelho dormitório de Lisboa.

No plano partidário, o PS é o maior derrotado na noite eleitoral mafrense. Tiveram uma oportunidade de ouro e desperdiçaram-na, primeiro com a péssima gestão que fizeram aos mandatos ganhos em 2009 e depois com a apresentação de um candidato sem qualquer ligação ao Concelho e com telhados de vidro quase tão frágeis como facto de o candidato do PSD ser deputado e ter votado favoravelmente em questões delicadas mas fundamentais para o futuro de país.

O PSD não esteve verdadeiramente unido, com a campanha a ser assegurada maioritariamente pela JSD e pelo movimento de independentes e também isso se reflectiu no resultado, que deveria ter sido muito melhor dada a popularidade do candidato e a inabilidade do PS.

A CDU está de parabéns ao ter elegido um vereador e conquistado espaço que estava a ser ocupado pelo BE.

O CDS continuou insignificante, como tem sido em Mafra, mas agora ainda mais.

Actualização: por erro de leitura dos resultados, tinha escrito que a candidatura de Mano Silva tinha roubado a maioria absoluta na Assembleia de Freguesia da Ericeira, tal facto não corresponde à verdade e como tal foi rectificado.

Nem todos os Zés podem ser empreendedores

Algumas pessoas ficam incomodadas quando me ouvem dizer que muitas mais empresas vão falir em Portugal porque simplesmente não têm condições para existir. É duro, mas é a realidade: temos um tecido empresarial fraco, mal preparado e que rouba espaço a outras empresas que poderiam nascer, ser mais fortes, mais eficientes e mais produtivas.

Hoje anda por aí muita gente animada com um artigo intitulado “O Zé não é empreendedor“. O artigo tem uns gráficos bonitos e tudo, mas é uma falácia.  O problema do artigo é que ao identificar um dos problemas em se ser empreendor em Portugal – a elevada carga fiscal – acaba por cair nas armadilhas em que muitos empresários (sem capacidade para o serem) caem.

A empresa que seria criada pelo Zé, tal como é descrito, cai na categoria de empresas destinadas a falir: é uma empresa com um único produto que serve apenas a um único cliente. Podia ser uma boa ideia, mas aparentemente é só meia ideia. Vou tentar saltar os erros do artigo em questão (contas mal feitas ou deturpadas, incoerências no enunciado, o facto de a mente brilhante que desenvolve um produto apenas conseguir emprego num call-center, etc.) e focar-me nas armadilhas.

Primeira armadilha: achar que uma ideia, só por ser boa, é um bom negócio

É dito no artigo que o Zé desenvolveu um “hardware especial adaptado a empresas que fazem apps”. Existem milhares de “empresas que fazem apps” mas o Zé considera que o negócio corre bem só porque consegue encontrar um único cliente  e que ainda por cima lhe impõe o preço. Ou ideia não é assim tão boa ou então resolve um problema que afinal não afecta assim tanto as “empresas que fazem apps”. Existe uma terceira hipótese: o Zé não tem jeito para vender o seu produto, logo não deve estar à frente de uma empresa.

Segunda armadilha: querer ser patrão

Ser empreendedor não é ser patrão. Pelo enunciado não vejo qual a razão de ter de contratar um empregado, porque não programa o Zé? Falta de tempo? Existem 168 horas numa semana! Considerando uma média de 8 horas por dia a dormir ainda sobram 112, “gastem-se” mais 4 horas por dia noutras actividades e sobram 84… Ser empreendedor dá trabalho (e provavelmente insónias)!

Se o Zé tem realmente necessidade de ter um programador a tempo inteiro a trabalhar com ele, então o melhor será propor sociedade ao colega de universidade, dividindo assim o risco mas também os proveitos futuros. Ser empreendedor não é ser ganancioso!

Terceira armadilha:  achar que o negócio dá lucro logo no arranque

Salvo raras excepções, os negócios não dão lucro assim que arrancam. É necessário investir – nem que seja tempo, muito tempo – para depois colher lucros. Um negócio que não requeira um investimento considerável à cabeça e/ou alguns meses a dar prejuízo não tem risco, logo não é expectável que se encontrem por aí muitos. Se o Zé não tem dinheiro para se aguentar enquanto não aparecem mais clientes, então terá de recorrer ao crédito ou a um programa de incubação de empresas. Um empreendedor tem assumir que vai correr riscos!

Quarta armadilha: não contar com um advogado nem com um contabilista

Muitas das empresas que hoje fecham portas nunca tiveram aconselhamento de um contabilista nem de um advogado. Isto faz com que não estejam minimamente preparadas para lidar com uma série de questões que mais cedo o mais tarde lhes vão cair em cima. O Zé não quer ter custos. Um empreendedor sabe que para ganhar dinheiro tem de gastar primeiro!

Conclusão

Para ser empreendedor não basta vontade, é precisa muita vontade, e muito trabalho e uma boa dose de sacrificio. Portugal não precisa de um tecido empresarial conformista, nem de empresários que não estejam dispostos a dar corda aos sapatos.

Se o Zé considera que o seu produto tem realmente futuro – isto é, que o seu produto consegue atrair mais clientes – e quer mesmo ser empreendedor, então tem de correr mais riscos e caminhar uns kilómetros extra. Porque ser empreendedor não é só ter uma ideia e constituir uma empresa.